lugar na estante

um livro e uma história

cresci em uma casa onde, quando pedia para ler livros, era incentivada a ler a biblia. nada contra cristãos, tenho até amigos que são, a questão aqui foi não ter sido motivada a fazer algo que não fosse: temer a deus e buscar um futuro no paraíso, enquanto no presente a minha obrigação sempre foi estudar, trabalhar e ter dinheiro para mudar a realidade dos meus familiares. hoje tenho consciência que cada um faz o que pode a partir das suas próprias limitações — e não deve ser fácil ter que lidar com uma criança que deseja coisas que você não entende e nem viveu — mas ainda assim, não é algo agradável de recordar.

meu primeiro contato com a literatura de ficção foi (talvez) aos dez anos, quando viajei com minha madrinha para passar o fim do ano no sítio e ela me deu pollyanna para ler em um dia tedioso de chuva, história que acabei devorando em pouquíssimas horas. essa foi uma breve imersão que tive no mundo dos livros, que só voltou a acontecer muitos anos depois, quando já estava na adolescência e gastei o pouco dinheiro que tinha (e nem lembro como consegui, não recebia mesada e nem nada do tipo) com a menina que roubava livros.

vinte anos após ter feito essa leitura, ainda carrego esse exemplar comigo, o primeiro livro MEU que tive na vida. muitas coisas mudaram desde então: agora faço a maioria das minhas leituras no kindle pela praticidade e nesse momento o sonho de ter uma biblioteca enorme em casa já não é mais tão presente. mas, pela primeira vez, essa história que marcou minha vida como leitora tem seu espaço em uma estante de verdade, sem precisar ficar escondida em alguma caixa ou entulhada em pequenas prateleiras improvisadas por falta de espaço — e ver esse cantinho organizado da forma que eu quero sempre me faz um pouco mais feliz.

Comentários